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sábado, 18 de outubro de 2014

Dor humana, Cura Divina

O que fazer com esta dor?

Existem médicos para curar o corpo e a mente,
 mas o que podem eles fazer em relação a morte inevitável?
Quando o desconhecido toma conta do corpo humano 
e a cura para os homens é impossível,
 os anos de estudos, a experiência e os conhecimentos médicos
e científicos caem por terra, e as mãos se elevam ao céu
 em busca dos mistérios que rondam vida e morte.
Milagres!
É apenas a Mão de Deus traçando o destino dos seus amados filhos,
e ensinando para os homens que o lugar deles é nos braços da Criação
A impotência diante da dor e da morte mostram que é vão fugir ao
Desconhecido, não existe conhecimento pleno, apenas rascunhos da Verdade 
escondida nos labirintos do inconsciente humano.
Deus escondeu-se do homem para que ele próprio o buscasse
por sua vontade.
Temos Deus escondido em nossa mente, lembranças esquecidas, espírito, alma,
o homem não é só corpo, mas também não é só alma, espírito,
é o Todo.
O total que Deus anseia tocar e curar das cegueiras e das incuráveis doenças humanas.
Não podemos tocar a dor
A dor se move
Divide-se em dor de corpo e dor da alma
Elas se beijam,
enroscam-se,
desfazem os pensamentos em palavras, soltas, pungentes,
que apenas a Eterna Piedade de Deus pode sondar e aliviar.

(Millena Cardoso de Brito)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Um novo dia, recomeço?

Amanhecer

Meu olhar estático espera
da madrugada o romper de um novo dia.
O brotar de uma nova esperança
que não se desfaça
e, no local das lágrimas,
quero colher o orvalho 
de mais uma manhã.
Pular da cama
e aproveitar o ar
que posso respirar
sem olhar para trás
e fazer desse dia
um novo dia para recomeçar.

(Millena Cardoso de Brito)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Infinito Desejo

Bem Além dos Sentidos

Assim que queria sentir,
Tocar cada parte do todo
Sem esquecer nenhuma parte,
Ter olhos capazes de ler 
Todos os livros do mundo,
Deleitar-se com as mais ignotas paisagens,
Enxergar além do horizonte,
Respirar todos os ares,
Sentir todas as almas...
Sem que houvesse falta.
Mas entre mim e o todo
Há um a 
             b
                i
                  i 
                   i 
                     i 
                       s  
                         mo
                               e
Quem sou eu para transpô-lo.

(Millena Cardoso de Brito)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A passagem do tempo

Mais um pouco de poesia:

Passagem

Ficou tudo solto no tempo.
O tempo levou as lembranças,
passaram as dores,
ficaram as marcas
no passado presente 
nas horas, nas vidas mudando
e a saudade ficando 
nas lembranças do passado
que ficaram.

( Millena Cardoso de Brito)

crédito: imagem retirada da Internet

sábado, 4 de outubro de 2014

O que eu posso fazer?

Uma cena que meus sentidos captaram desconcertou minha visão sobre a humanidade,como se pela primeira vez eu tomasse consciência da impotência do ser humano diante de certas situações. Na semana passava, eu voltava para casa de carro dirigido por meu pai, depois de uma cansativa noite de estudos no cursinho que faço durante a semana. Como de costume, eu vinha escutando música de uma rádio (a programação naquele horário de final de noite é uma delicia para os ouvidos, apenas clássicas músicas de jazz). 

Durante o percurso rotineiro da minha carona preferida de volta para casa, o cansaço do meu pai faz com que ele não seja uma boa companhia para um bate-papo animado, então, habituei-me a silenciar e respeitar a fata de ânimo dele. Contentei-me em conter minha tagarelice e, deixar a música fluir, orquestrar meus pensamentos em silêncio, enquanto olhava pela janela do carona. As luzes da cidade, prédios, o caminhar das pessoas, muitas delas com o medo saltando dos olhos, as árvores à beira do rio Poti resistindo heroicamente ao calor teresinense e à expansão do concreto são alguns dos elementos do meu caminho para casa.

Aquele dia parecia como os outros. A rotina parece imprimir nos nossos sentidos uma automatização, quando vivenciamos fatos repetidas vezes. Isso foi o que eu senti ao abandonar-me aquele momento tão semelhante aos que tinha vivido em outros dias. Enganei-me. 

Poucos quilômetros antes de regressar ao meu lar, como já tinha acontecido outra vezes, o carro parou no sinal, pois eu tenho um pai com o hábito de obedecer à sinalização do trânsito. Em razão do adiantado da noite, suponho, havia apenas o carro dele parado no semáforo. À nossa frente, avistamos um rosto de um rapaz. Essa visão fez com que eu acordasse do meu enlevo musical e do conforto da rotina. Ele estava com roupas largas para o seu corpo franzino e sujo, movimentava-se como um sonâmbulo nas sombras da noite, as mãos levantadas pareciam em súplica, cada uma delas havia um objeto: à da esquerda, um pano sujo, aparentemente mal cheiroso e esfarrapado; à da direita, um rolo para limpeza de vidros de carros. Eu já tinha visto aquele rapaz a pedir moedas no sinal e em todas essas ocasiões, quando o via entristecia-me e instintivamente fazia preces ao Meu Deus para que o Senhor fosse ajudá-lo e protegê-lo.

Porém, não sei o por quê, daquela vez senti algo diferente. Os olhos da pobre criatura, para mim uma criança, pareciam não ter consciência de si, visivelmente drogado, caminhava tropegamente, os farrapos que vestia a flamular ao vento, como bandeiras de uma nação arrasada. Surpreendentemente, como não é comum nos meses mais quentes da cidade de Teresina, o céu anunciava que ia chover, em breve, e, por isso, fortes rajadas de vento investiam contra o frágil garoto. Ele aparentava ser mais jovem do que eu, com meus 25 anos, supus que ele não chegasse aos 18 anos. Pensar nisso, fez com que me sentisse tomada de um desejo de proteção maternal, pensei em fazer o costumava quando presenciava situações como aquela e fiz. Orei silenciosamente, mas isso não aplacou a sensação de impotência que esmagou e oprimiu meu coração. Uma dor e um desespero estranho invadiram-me. A oração silenciosa converteu-se em palavras e quebrei meu silêncio, comentando com meu pai como era triste ver um rapaz tão jovem em situação tão degradante. 

Ao meu lado, com o sentimento protetor e a experiência de um homem mais vivido do que eu, meu pai olhou, com uma dureza fingida, para o rapaz e negou que ele limpasse os vidros do seu carro, mas por dentro percebi que também sentia piedade pela situação do garoto. Porém, era tarde da noite e uma pessoa naquela situação representava um perigo. Eu compreendi interiormente que a situação merecia cautela, mas a dolorosa sensação de impotência não me abandonou. O sinal demorava a permitir que o meu querido pai nos levasse para a proteção do nosso lar e para longe de tão grotesca cena. Eu pensava comigo:

- O que me fez sentir de forma tão mais intensa essa tristeza que me consumia ao presenciar a miséria de um rapaz desconhecido para mim?

Cheguei a conclusão de que daquela vez tinha tido a oportunidade de olhar nos olhos do pobre rapaz e não consegui desviar o olhar. Com essa atitude pude sentir como é doloroso presenciar tão cruel degradação de um semelhante que podia ser meu irmão, na verdade, para mim ele é meu irmão. Sou cristã e dentre os meus ideias inclui-se o amor ao próximo. Os segundos que o carro ficou parado pareciam prolongar-se mais do que o transpor natural do tempo, então, eu questionei-me:

- O  que eu faço para mudar uma situação como essa? 

A resposta veio como um tapa na cara - Nada.

As minhas pequenas ambições, vaidades, medos pareceram pequenos diante dessa resposta - Nada.

Eu devia estar com medo do rapaz e rezando para que o sinal abrisse logo, mas o que eu realmente desejei naquela fração de tempo foi abrir a porta do carro, correr em direção ao pobre rapaz, abraçá-lo, pedir desculpas por não saber o que fazer para ajudar, e ter poderes para arrancá-lo da miséria e da apatia. Para a maioria das pessoas seria uma loucura. Além disso, eu não tive coragem de fazer aquilo. Diante da minha impotência e da dor paralisada que foi tomando conta de mim, eu explodi em lágrimas. Meu pai olhou-me enigmático e antes mesmo que ele dissesse algo, o sinal abriu. 

O som dos meus gemidos de dor pela cena presenciada misturaram-se ao som alegre do rádio, rompidos por apenas poucas palavras dispersas que meu pai falava e eu, envolvida na dor, não consegui ouvir com exatidão. Em casa, minha mãe abriu o portão da garagem para nos receber, como de costume. Eu sai apressadamente do carro, decomposta pelo duro golpe da realidade vista e sentida, joguei-me nos braços dela, desabei a chorar e contei o que tinha presenciado. Contive o choro e perguntei, olhando para ela:

 - O que nós podemos fazer, mãe?!

Ela sem resposta apenas me abraçou, e confortou-me com a doçura do seu olhar. O resto da noite transcorreu com a mesma sensação que senti ao ver a cena.  Uma impressão tão forte que está sendo minha companheira durante vários dias, por isso, resolvi escrever. 

A cena descrita foi um alerta para mim e eu pude refletir sobre a necessidade de sair da apatia para lutar pela dignidade humano.

 Não adianta o homem correr atrás de riquezas e degradar-se. Deixar de lado sentimentos como de honra, compaixão, amizade, amor é viver como as máquinas que o ser humano constrói, e nós existimos não para uma vida superficial, medíocre, sem significado e construída de coisas passageiras, mas para buscar uma vida digna de seres que foram feitos para a Eternidade. 

crédito: foto retirada da Internet


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Será que é amor?

Respostas

Não me perguntes se te amo
apenas olhes dentro dos meus olhos
e encontrarás todas as respostas que precisas.
Pois teu olhar parece arrancar minh'alma,
perco-me perto de ti.
Para que usar palavras,
se meus olhos não conseguem
esconder o abandono fiel
que transmitem na tua presença?
Tu faz-me despir de toda a hipocrisia
para perder-me sem reservas
nos teus braços,
e ainda perguntas?

(Millena Cardoso de Brito)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Em tempos de Guerra...

Olhou sem conseguir compreender o que representava aqueles destroços do que antes era sua casa, sua vida. A garota de apenas 5 anos tinha ouvido falar dos rumores de uma tal guerra que assolava sua cidade, mas a ternura dos familiares e o convívio com os amigos, dissipava a preocupação de que algum mal pudesse atingir os lugares e pessoas que ela tanto amava. A menininha, ao ouvir falar da guerra tempos atrás, perguntou para a sua mãe, uma boa senhora que a havia criado desde que ela foi abandonada recém-nascida na porta da casa onde viveu seus primeiros anos:
- Mãe! O que é guerra? Meus amigos falam que os pais deles vão deixar a cidade, pois essa coisa está chegando, é verdade? Estou com tanto medo...
A boa senhora respondeu com o tom mais amável que conseguiu tentando esconder seu olhar de pânico ao ouvi aquela palavra:
- Guerra é uma coisa muito feia, é uma briga que faz muitas pessoas perderem a vida, as guerras afastam as pessoas das coisas e pessoas que amam, e deixam muita gente ferida e triste.
A menina olhou espantada, e agarrou-se a saia da mãe, colocou sua cabeça pequenina no ventre estéril da mulher que se  tornou sua mãe de coração, e começou a chorar. A mãe acariciou os cabelos negros e encaracolados da filha e, novamente, com um grande esforço para não demonstrar nenhuma sombra de medo, começou a falar da fé que nutria sua alma, da esperança que tinha em um Deus de infinita bondade, que tinha enviado o seu filho querido para morrer por nós, da importância de acreditar no imenso amor do nosso Pai do céu e em seu Filho. A mãe também relembrou o dia que colocou a menina pela primeira vez nos braços, após escutar seu choro entre as plantas do jardim da casa. Ela retirou o bebê, enrolado em uma manta branca, dentre as samambaias que faziam parte do seu jardim nos fundos da casa.
Nesse dia , ao ir levar o cachorro da família, o Rex, para passear, o seu marido tinha esquecido a porta dos fundos aberta. A senhora tinha ficado em casa preparando o café da manhã de domingo, e ao ouvir um barulho semelhante a um choro pensou ser o marido que tinha esquecido algo e voltava com o Rex choramingando. Sua surpresa foi grande quando viu tão pequeno pedaço de gente entre as suas plantas, pegou-a no colo, e como mágica sentiu-se envolvida de um sentimento que procurava sentir há anos, enquanto procurava encontrar soluções para vencer sua dificuldade de engravidar. Foi amor ao primeiro toque, o cheirinho da menina invadiu todos os seus sentidos e a fez sentir-se como uma leoa a partir daquele momento, forte e determinada a proteger aquela criança tão pequenina e frágil.
Quando seu marido chegou em casa, tomou um tremendo susto ao perceber que não havia apenas uma mulher em sua casa, mas duas. Os dois conversaram- longamente- sobre os desafios que deveriam enfrentar para adotar aquele bebê de origem desconhecida, mas nenhum deles os fez recuar diante do horizonte de ternuras imensas que vislumbraram ao pensar na possibilidade de terem uma criança para enfim poderem exercer o papel que tanto ansiavam: pais.
Ao ouvir e olhar para sua mãe falando com os olhos que a faziam lembrar os seus doces preferidos, seu coração acalmou-se, podia sentir o calor de cada uma daquelas palavras, que descortinavam um mundo tão bonito e cheio de encantos já pressentidos por sua alma. O que mais chamou a atenção da garota foi sua mãe falar sobre criaturas aladas que tinham a missão de ajudar a Deus na proteção das pessoas e do mundo. As palavras de fé e esperança da mãe de Madalena dissiparam os pensamentos tristes que o significado da guerra havia deixado no ânimo da garota. Maria também falou da origem do nome da menina, Madalena foi batizada com este nome em homenagem a uma das mulheres bíblicas que depois de sofrer pelas suas escolhas erradas e ser marginalizada pela sociedade da época de Jesus, converteu-se ao cristianismo. Madalena prestou atenção a cada uma das explicações sobre a religião de seus pais, ela mesma já havia feito várias perguntas para as suas catequistas sobre a família que diziam que ela tinha no céu. porém, aquela foi a primeira vez que se sentiu à vontade para perguntar tantas coisas que desconhecia. Então, ela percebeu que, em muitos momentos, nem sua mãe sabia ao certo responder suas perguntas, mas a certeza que sua mãe transmitia em cada um dos seus gestos e na forma de falar, não deixava dúvidas no seu coração de que gostaria de conhecer e provar mais do amor de um Deus tão amoroso.A menina calou uma pergunta carregada de esperança pueril, será que Deus pode acabar com a Guerra? E pensou consigo mesma "Vou falar com Ele mais tarde", e sorriu de si para si.
Ao relembrar esses fatos não conseguia compreender o porquê daquelas ruínas. Ela tinha pedido tanto para Deus cuidar da casa que tanto amava! Seu desespero foi maior ao saber que naquele dia, como sua mãe precisava arrumar as coisas para embarcarem para outra cidade, pois os bombardeios estavam se aproximando cada vez mais de onde moravam, ela não tinha ido buscá-la na escola e poderia estar embaixo de algum daqueles destroços. Correu aflita para perto dos restos da casa onde morou seus primeiros anos de vida, e com as mãos pequeninas cavou, cavou, como se com aquela atitude pudesse ter o poder de voltar no tempo, e reconstruir o que havia perdido. Os bombeiros retiram a menina aos prantos daquela atividade inútil, sua tia que a havia trazido da escola não menos abalada, perguntou sobre o acontecido ao chefe das operações de resgate. O homem forte, e com um ar frio falou em um tom sorumbático e com um sotaque de inglês norte-americano carregado, porém compreensível:
- Sinto muito, mas não conseguimos socorrer sua irmã. Quando chegamos o marido de sua irmã havia entrado na casa, e horas depois houve um desabamento, também não tivemos como socorrê-lo.
Nesse momento, tia e sobrinha ficaram a olhar para o vazio, sem reação, após um curto tempo de inércia, caíram uma nos braços da outra. Madalena, mais uma vez, conseguiu iludir a atenção dos presentes, e ao deixar os braços da tia, correu para os fundos da casa em destroços, e viu um corpo estendido no chão coberto por um saco preto, uma cor que naquele momento foi mais clara do que qualquer palavra para definir morte. Sentiu que os bombeiros aproximavam-se, mas não se intimidou, correu para junto do corpo estendido de braços apertos, como o Cristo do crucifixo que sempre trazia sobre o peito, ao lado seu lado o bom e velho Rex trouxe um pouco de conforto, lambendo o seu rosto. Haviam muitos destroços por perto, mas mesmo assim, levantou com suas mãozinhas sujas o pano preto, e vi os olhos petrificados do homem que tanto amou na Terra. Mais uma sensação percorreu todo seu corpinho franzino, pensou que ia desmaiar, mas seu fiel amigo canino, novamente a confortou com uns olhos que pareciam compreender tudo e sentir cada um dos dolorosos golpes que sentia partir seu coração. O cão lambeu mais uma vez as faces, além de molhadas, agora, sujas da garota e  como se dissesse para garota não se preocupar com o pai, pois ele ficaria bem, lambeu o sangue que jorrava da fronte de seu companheiro de passeios matinais. 
Pouco depois, os passos da tia e da equipe de resgate chegaram ao fundo da casa em ruínas, e depararam-se com a cena. Até mesmo o homem de ar frio, sentiu que algo de humano sobrevivia dentro dele, uma sensação de desolação o fez estremecer, apesar de já ter presenciado vários acontecimentos trágicos como aquele. A tia de Madalena aproximou-se e levou a garota, que sem forças para resistir , deixou-se levar para um abrigo destinado aos sobreviventes do ataques daquela tarde. No dia seguinte iriam rumo à cidade mais próxima, onde já havia um grupo refugiados em uma fazenda de propriedade da Igreja Católica Apostólica Romana.


Acompanhe a continuação da história na próxima postagem!

Crédito: imagem retirada do sítio eletrônico Terra, uma foto de AP